17 novembro, 2009

50 anos sem Heitor Villa-Lobos


Na semana que se completam 50 anos da morte de um que talvez tenha sido o músico que mais defendeu o Brasil e sua cultura popular, eu não vi nenhuma demonstração de "gratidão" com o mestre. Pra não falar que não vi nada, uma emissora de TV falou que ia passar um documentário, mas não falou dia nem hora. A TV cultura apresenta um "Mosaicos" especial. Mas TV cultura num vale. Eles sempre lembram dessas coisas. Agora, é muito mais importante o povo ver a fazendo que saber da obra e vida de seus pilares culturais. Falando em Pilar, na Cidade de Pilar do Sul, hoje haverá uma grande festa em virtudo desses 50 anos. Acompanhe em www.pilarcultural.org. Coloco aqui um texto que recebi faz alguns meses do amigo Alexandre Dias e agradeço ao Américo Esteves Rodrigues pela notícia.


PROGRAMAÇÃO DEDICADA A VILLA-LOBOS
O homem que tocou o Brasil

Nos 50 anos da morte de Heitor Villa-Lobos, principais orquestras do país programam concertos em homenagem ao compositor das Bachianas brasileiras. Antigos colaboradores falam do mestre:

A herança que Heitor Villa-Lobos deixou para a história da música tem a marca de um profeta. Nascido no Rio de Janeiro em 5 de março de 1877, levou ao mundo sonoridade ímpar de peças inspiradas na cultura popular brasileira. Não bastasse a vasta e competente obra, para inúmeras formações, que divulgou a singularidade da arte produzida no Brasil, ele apontou caminhos para o desenvolvimento do popular e do erudito, promovendo estreitamento dos laços entre os dois continentes. E ainda foi um dos precursores do ensino da música como disciplina não apenas obrigatória, mas essencial, nas escolas públicas. Cinquenta anos depois de sua morte, em 17 de novembro de 1959, vítima de câncer, o maestro e seu legado são lembrados em todo o mundo. Ao mestre, dizem os artistas, todo o reconhecimento pela universalidade de sua
inspiração.
Villa-Lobos tornou-se mais que uma bandeira, mas uma bússola indispensável. Ele não é apenas o pai da música de concerto no Brasil, mas também da nossa música popular", diz o violonista maranhense Turíbio Santos, diretor do Museu Villa-Lobos, no Rio de Janeiro. Ele lembra como o maestro influenciou outro mestre brasileiro, Tom Jobim,
no CD Mistura brasileira, em que demonstra essa afinidade. Para ele, a genialidade de Villa-Lobos está na capacidade de sintetizar a riqueza de referências múltiplas e antecipar o que viria a ser definido como identidade da música brasileira em todas as suas vertentes. "Assim como os brasileiros têm saudades da feijoada quando estão muito tempo fora do país, os músicos sentem falta de Villa-Lobos. A obra dele está na nossa essência, diz respeito à alma do nosso povo. Isso faz dele um "gênio", analisa Turíbio Santos.
Maestro e diretor musical da Orquestra Filarmônica de Minas Gerais, Fabio Mechetti adianta que a Série Vivace, da temporada 2009 de concertos, terá homenagem a Villa-Lobos durante todo o ano. Serão lembradas obras importantes do repertório sinfônico, como A floresta do Amazonas, as Bachianas brasileiras 3, 7 e 9, e Uirapuru, entre outras. "A música dele chamou a atenção do mundo pelo exotismo, pela
capacidade de retratar temas, ritmos e sons muitos próprios. Isso causou impacto enorme, além de ter sido um grande educador.
Villa-Lobos foi um dos responsáveis pelo processo de emancipação da sociedade brasileira no que tange à música erudita", comenta o maestro.

Em todo o país, Heitor Villa-Lobos será lembrado durante este ano em concertos das principais orquestras brasileiras, grupos instrumentais, cantores, músicos sinfônicos e populares. Em Belo Horizonte, as homenagens também serão intensas e em vários gêneros

PROGRAMAÇÃO DEDICADA A VILLA-LOBOS
Presença na memória brasileira
A cantora lírica Maria Lúcia Godoy e o flautista Sebastião Vianna recordam o mestre Villa-Lobos e sua marca pessoal na criação da obra e nos projetos de educação musical

Luciano Carneiro/O Cruzeiro/Arquivo EM - 15/8/1957
O compositor Villa-Lobos em ação: pesquisa dos motivos populares brasileiros fundamentam obra de reconhecimento universal

O primeiro e único contato da cantora lírica mineira Maria Lúcia Godoy com o maestro Heitor Villa-Lobos ocorreu na juventude da artista, que anos depois seria considerada uma das principais intérpretes da obra vocal do maestro. Ela ensaiava Remeiro do São Francisco, da série Modinhas e canções, no auditório do Instituto de Educação, em Belo Horizonte, quando o compositor entrou na sala, acompanhado pelo
maestro José Siqueira. "De repente vi um homem com aquela cabeleira, olhos fuzilantes e charuto na boca. Ele parou um instante, me ouviu, elogiou minha voz e disse que um dia escreveria algo para mim", lembra Maria Lúcia. E acrescenta: "Mal sabia ele que já havia composto a Bachiana nº 5, que cantei tantas vezes como solista", brinca a cantora, fazendo referência a uma das peças que a consagrou no palco.

Ela conta que se sente agraciada por ter descoberto na mocidade obra tão intensa. "Entrei num mundo encantado e minha relação com o trabalho dele tornou-se algo embrionário. Esse encantamento aconteceu num tempo em que não tinha a menor noção da importância dele", comenta. Maria Lúcia Godoy define o maestro como "a expressão máxima de um mestre", pela qualidade de sua escrita, mas também pela capacidade de propor temas relevantes. Em A floresta do Amazonas, ela avalia, está o "grito musical" de um compositor atento a questões mundiais, como a degradação da natureza. "A música dele nos toca profundamente porque reflete o quanto ele amou o Brasil e a nossa cultura."

ORFEÔNICO
Para o flautista mineiro Sebastião Vianna, que atuou como assistente de Villa-Lobos no Conservatório Nacional de Canto Orfeônico entre 1944 e 1950, no Rio de Janeiro, meio século sem o maestro não pode ser lembrado sem que seja feita a devida menção à "elegância e inteligência" de um compositor que sabia da importância de seus
ideais. "Convivi com ele durante sete anos, de segunda a sexta-feira, e fui testemunha do ritmo em que trabalhava. Pela manhã, ele se concentrava em compor, no apartamento da Rua Porto Alegre, onde morava. Depois do almoço, ia para o conservatório, onde ficava até o início da noite", conta. Enquanto fazia revisão das obras dele, que circulavam por outros estados, como São Paulo, e também eram enviadas
aos Estados Unidos. Vianna convivia com o maestro e seus convidados,e aprendia critérios de uma escrita sofisticada e ao mesmo tempo popular.
"Ele era cheio de si e até um pouco temperamental. Todos os grandes escritores, compositores e intelectuais da época o procuravam", diz, lembrando o pianista Arthur Rubisntein e o compositor Florent Schmitt. Para Sebastião Vianna, a lembrança mais emocionante do maestro é da ocasião em que ele conseguiu reunir 40 mil crianças no estádio do Vasco, cantando a quatro vozes. "Só um homem da competência dele e com
o amor que tinha pela educação musical conseguiria este feito", afirma o flautista, que tem no repertório várias peças do mestre.

MOTIVOS NACIONAIS

Pianista e compositor que participou de projetos que envolvem a obra de Villa-Lobos, Túlio Mourão observa que o maestro foi um dos "formuladores da identidade nacional" para a música brasileira.
Camargo Guarnieri, Francisco Mignone, Guerrra Peixe, além de Egberto Gismonti e Hekel Tavares estão entre os sucessores de um comportamento que virou escola. "É muito nítida essa busca de motivos nacionais e populares na música dele e como esse aspecto influenciou outros grandes talentos da nossa música", diz.
Para Mourão, o gênero instrumental também assimilou essas referências, ainda que indiretamente para alguns. "É impossível ouvir Egberto ou Tom Jobim e não fazer a associação. Mesmo quem não conhece profundamente a obra de Villa-Lobos recebe a influência dele por essas outras vias", diz o músico. Para ele, a atitude nacionalista precisa, de alguma forma, ser retomada na música contemporânea. "Existe muito na tradição popular brasileira para ser revelado e repertório que
comporta essa contextualização na atualidade.

Uma breve biografia do mestre

• 1887 – Nasce Heitor Villa-Lobos no dia 5 de março, no Rio de Janeiro, na Rua Ipiranga, Bairro de Laranjeiras, filho de Noêmia e Raul Villa-Lobos.

• 1900 – Compõe, para violão, sua primeira peça, Panqueca, em homenagem à mãe

• 1905-1912 – Viaja pelo interior do Brasil, conhecendo o país, o povo e seus hábitos, cantos e danças.

• 1908 – Compõe os Cânticos sertanejos para pequena orquestra, e a primeira das peças (Mazurka-Choro) que formariam a Suíte popular brasileira, concluída em 1923.

• 1910 – É contratado como violoncelista de uma companhia de operetas que se dissolve no Recife. Vai a Fortaleza, Belém, Amazonas e chega até a ilha de Barbados, onde começa a escrever as Danças características africanas.

• 1912 – Compõe sua primeira grande ópera, Izaht.

• 1917 – Compõe os balés Amazonas e Uirapuru

• 1918 – Compõe A prole do bebê n° 1, para piano solo.

• 1919-1935 – Compõe as Canções típicas brasileiras, para canto e piano.

• 1920 – Escreve o Choros n° 1, para violão, dando início à criação do ciclo de 14 Choros

• 1921 – Dá início à composição do Rudepoema, obra concluída em 1926

• 1923 – Subsidiado pelo Congresso brasileiro, faz sua primeira viagem à Europa.

• 1928 e 1929 – Compõe os 12 Estudos para violão e os dedica a Andrés Segóvia.

• 1930 – Dá início a dois marcos em sua vida – a composição das 9 Bachianas brasileiras e o projeto de educação musical.

• 1943 – É nomeado diretor do Conservatório Nacional de Canto Orfeônico, criado em 1942 pelo governo federal.

• 1945 – Escreve o primeiro dos cinco concertos para piano e orquestra.

• 1948 – Descobre câncer na bexiga e realiza uma primeira e bem-sucedida cirurgia no Memorial Hospital de Nova York.

• 1955 – No Carnegie Hall de Nova York faz ouvir, pela primeira vez, sua Sinfonia nº 8, dirigindo a Orquestra da Filadélfia.

• 1959 – Grava, com o soprano Bidu Sayão e a Symphony of the Air, A floresta do Amazonas. Morre no Rio de Janeiro, aos 72 anos, em 17 de novembro, sendo velado no Theatro Municipal e enterrado no Cemitério São João Batista. Na lápide de seu túmulo lê-se: "Considero minhas obras como cartas que escrevi à posteridade sem esperar resposta."



Muito obrigado, Villa-Lobos!