31 janeiro, 2007

Um post de respeito

Como falei abaixo, o Jobim é o compositor capaz de me tirar do estado material e me fazer viajar por quaisquer mundos. Então volto a evocar Jobim e sua música. Dessa vez no violão que pra mim é um dos mais perfeitos e seguros do mundo. Mestre do arranjo e do violão, Paulo Bellinati mostra nesse vídeo tudo o que sabe. Com um arranjo perfeito de Surfboard, de Tom Jobim. Sou fã do Paulo. E onde acharam discos dele pra comprar, comprem! Prometo que não se arrependerão. E pra falar de violão nada mais lindo que um poema de Garcia Lorca.
Até a próxima!

La Guitarra
Frederico Garcia Lorca

Empieza el llanto de la guitarra.
Se rompem las copas de la madrugada
E inutil callarla.
Es impossible callarla.
Liora monótona
como llora el agua,
como llora el viento
sobre la nevada.
Es imposible callarla.
Llora por cosas lejanas.
Arena del Sur caliente
que pide camelias blancas.
Llora flecha sin blanco,
la tarde sin mañana,
y el primer pájaro muerto
sobre la rama.
!Oh guitarra!
Corazón malherido
por cinco espadas.

30 janeiro, 2007

Meu amigo Tom Jobim

Continuando a saga de aprender como se usa isso aqui, vamos ver se consigo compartilhar com vcs alguma coisa do nosso maestro soberano. Tom Jobim, que faria aniversário na semana passada, foi um dos principais compositores e símbolos de nossa música. Mesmo assim, só ganhou um "especial" de meia hora na TV. E ainda por cima só se lembram dele quando convém pra mídia. Mas paciência. Nós ficamos aqui eternizando sua obra e sua imagem do jeito que dá. Tom, pra mim, é mestre, é professor de harmonia, de música e sentimento. É guru, pois sempre que ele fala parece que tudo para ao meu redor. É o que faz minha alma mais tranqüila. Basta ouvir uma música de Tom que parece que o mundo fica perfeito aos meus olhos. Só tenho uma frustração na vida: Não ter visto Tom ao vivo. São sei o que faria... Talvez o abraçasse, forte, muito forte, com os olhos cheios de lágrimas sem conseguir falar nada. Talvez só olhasse... não sei... Só sei que Tom, pra mim é fantástico!

29 janeiro, 2007

Recordar é viver...

Como ainda num sei usar isso direito e estamos aí às vésperas do carnaval, vamos lembrar um dos episódios mais repugnantes do carnaval brasileiro. Infelizmente foi protagonizado por uma das maiores escolas de samba do Rio de Janeiro. Em 2005 a escola de samba Portela depois de uma série de papagaiadas na avenida, "fechou com chave de ouro" seu desfile quando não deixou a Velha Guarda entrar na avenida. Dizem que estudamos a história para aprender e não repetir os erros cometidos. Espero que seja verdade. Eu já não achava graça nenhuma em carnaval, mas depois disso, prefiro passar o carnaval dormindo. Ainda mais agora que até a Mangueira, que só tinha moças da comunidade como rainhas e madrinhas de bateria (aliás, qual a diferença entre elas?), esse ano sairá com a Preta Gil à frente da bateria da verde e rosa, a ex-escola do meu coração. Eis o que foi publicado. Um abraço!

O País que barrou a Velha Guarda (Artigo de Joaquim Ferreira dos Santos - Jornal O Globo de 19/02/2005)

Sem muitos motivos para desejar ser agradável, segue a crônica da quarta-feira de cinzas. Esse é o país - já que de vez em quando aparece alguém nos jornais perguntando que país é esse - esse é o país em que se bate o portão na cara da Velha Guarda da Portela porque, se ela desfilar, vai prejudicar a festa. Esse é o país que acabou de passar na sua televisão e nas primeiras páginas dos jornais. O país da bunda jovem, da redondilha maior em que queremos todos meter a nossa poesia e dar dez, nota dez sem tirar de dentro. O país do chulo. Do rabo como item cultural. O resto é velharia. Descartável. Um bando de tradições miseráveis que só atrapalha a evolução da escola, desconta ponto no quesito harmonia, atravanca o progresso geral da nação e provoca cacófatos danados como esse.
Dois anos atrás um ministro de assuntos ordinários chamou toda essa gente velha pra fila, pôs embaixo do sol e ligou o gás. Os pretos velhos sobreviveram. Agora bate-se-lhes com o portão na cara. Falta bunda redondinha na Velha Guarda da Portela, falta silicone nos seus peitos muxibinhas, falta botox em suas beiçolinhas africanas. E, onde já se viu?, ainda querem passar sob as luzes da mesma avenida em que a câmera voadora da Globo dá uma geral de frente e verso, por cima e baixo, da Juliana Paes. Aqueles crioulos velhos da Portela fugiram da polícia no século passado, cresceram no sapatinho, improvisaram à luz das gambiarras, batucaram na cozinha, botaram toneladas de paio no feijão, mas infelizmente não sabem mais se comportar diante do camarote da Nestlé. Inventaram a festa, os pobres coitados. O que adianta se não têm mais pique para desfilar no tempo previsto?! Fecha o portão no reco-reco deles! Aos rigores do novo regulamento e da falta de respeito com qualquer cheiro de tradição! Isso aqui, ô, ô, é o terreiro que está reescrevendo a frase clássica de que um país se faz com homens e livros. O acúmulo de conhecimento já era. Bullshit. O Brasil é feito de homens e bundas novinhas. Bundas de preferência calipígias, esse best-seller de carne crua suculenta, steak tartar para se cair de boca e devorar, procurando em sua pimenta escondida um sentido que explique nossa falta de cabeça e imaginação.
O carnaval de 2005 vai entrar para a história como aquele em que os velhos da Velha Guarda choraram, marginalizados pelo estigma de estarem na festa desde o seu início. Foi o carnaval em que as bundas invejosas sorriram por estarem agora usufruindo da delícia de comandarem o cordão moderno. Esse é o país - já que a toda hora aparece um beletrista perguntando para onde vamos - esse é o país que vai sempre atrás de um rabo qualquer balançando. Não à toa, as grandes exemplares da nova raça são chamadas "cachorras". Nada contra a bunda, Deus que me livre de tamanha heresia, e seu poder de animação pândega. Há até quem sugira, na roda de chope do Bracarense, que ela roube do cinema o slogan de "a melhor diversão". Pode ser. Mas o pandeiro em que se bate aqui é outro.
Fernando Pamplona inventou os enredos sobre a história dos negros, Joãozinho Trinta dimensionou os carros para os novos tempos, Fernando Pinto popicalizou a festa - e, à cultura da Mangueira, dos malandros do Estácio, das tias baianas da Praça Onze, esses artistas revolucionários iam acrescentando sua imaginação respeitosa para com o passado.
Em 2005, a grande novidade do desfile foi um laquê que mantém as bundas mais durinhas, bundas agora tão vitreamente plastificadas que já deixaram para trás sua vocação original. Viraram autênticos carros alegóricos. Breve, estarão entre os quesitos a serem pontuados por especialistas formados nos cursos da Liga das Escolas (Este ano, a propósito, já surgiu nos jornais um analista de rainhas de bateria, essas senhoras que nada mais são do que as melhores bundas de cada agremiação. O crítico pontuou cada uma delas, digo, as rainhas, com análise muito séria de performances, de suas relações com os ritmistas e empatia com o público.) Uma bunda é uma bunda é uma bunda - acho que Gertrude Stein andou dizendo alguma coisa parecida - e todas juntas podem até fazer uma festa animada sábado à noite num apê de Copa. Carnaval, se eu entendi o que estava escrito nos sambas de Silas de Oliveira, é a história de outra orgia. Nela, Tia Surica, em quem bateram com o portão na cara, vale mais que a Carol Castro, em quem só bateram com as carícias dos flashes.
A história dos povos ainda não registra nenhuma cultura formada a partir do par de glúteos, talvez porque eles sejam comuns a todos os povos. Falta-lhes originalidade artística. Não é verdade sequer, como julgam os especialistas, que as bundas nacionais são melhores que as de todos os países do Mercosul e da União Européia juntas. Mentira, orgulho bobo. As bundas brasileiras apenas são mais exibidas. Esse é um país que gosta de esquecer sua História, seja por falta de fosfosol no cérebro, seja porque preferiria que ela fosse diferente. Bater com o portão na cara do passado e liberar o acesso das neobundas galácticas de laboratórios é uma dessas tentativas equivocadas de reescrever o Brasil como um puro-sangue que não cabe em si, muito menos na calça da Gang, de tão arrogante.
São 500 anos de poucas glórias. Inventamos uma mistura de limão com cachaça, o chute com três dedos - e o que mais mesmo? A Portela fez com o carro da Velha Guarda o que os jornalistas fazem com seus textos. Deixam a parte menos interessante para o final porque, se não couber no espaço, corta-se por aqui mesmo. Ninguém sentirá falta das idéias desbundadas. Chama-se a técnica de "pirâmide invertida". Os pretos velhos dos subúrbios são aqueles que abriram a roda e aprenderam a bater tambor de um jeito diferente, o tal do samba, uma das outras colunatas dessa civilização pobre, pero divertida, que eles ajudaram a erguer.
No desfile da Portela, a Velha Guarda estava no final, um penduricalho sem importância, pronto para o abate - e não deu outra. Esgotou o tempo? Corta fora a velharada que só astravanca o progressio. Eu acho o contrário, mas sei que nesse bundalelê geral minha opinião também pouco interessa. Pode cortar. Fecha o portão na cara dessa velha-guarda jornalística.